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Informes

 

02/10/03 - Ofício ao Secretário de Transportes - Ref.: Projeto do Corredor Ibirapuera -Vereador José Diniz

 

São Paulo, 02 de outubro de 2003.

 

 

Exmo. Sr. Jilmar Tatto

DD. Secretário dos Transportes

Prefeitura Municipal de São Paulo

 

Ref.: Projeto do Corredor Ibirapuera -Vereador José Diniz

 

 

Prezado Sr. Secretário:

Como certamente é do conhecimento de V.S., as entidades signatárias vêm acompanhando e discutindo há um mês e meio o projeto de implantação do corredor de ônibus Ibirapuera - Vereador José Diniz. Ao longo desse processo de manifestação democrática, viabilizada pela atitude pioneira da atual administração municipal, temos verificado uma série de graves indefinições no projeto em tela, que colocam dúvidas quanto aos objetivos, ao embasamento e aos procedimentos adotados na formulação do programa.

Estas indefinições, a permanecerem, dão a esta intervenção forte risco de insucesso. Este risco leva as entidades a solicitarem a atenção de V.S. para estas questões. Há forte preocupação e inquietação com a possibilidade de que a intervenção resulte em dupla perda, para a cidade que não terá os objetivos de melhoria atendidos e dos moradores que terão a qualidade de vida mais reduzida.

 

 

Principais problemas identificados:

 

  1. Indefinição quanto ao real objetivo do projeto
•  Corredor de ônibus para aumentar a rapidez dos ônibus e melhorar o transporte público,
OU
•  Projeto de melhoria do viário para reduzir congestionamentos e melhorar a fluidez dos carros, OU
•  Projeto de melhoria das condições de segurança no trânsito e para os pedestres?
 

1.1. Presumindo que se trate efetivamente de um corredor de transporte coletivo, como sugere o Plano de Transportes aprovado na Câmara em agosto de 2001, qual será seu destino final?

Inicialmente, foi apresentado como um corredor com porta à esquerda, percorrendo a faixa central, que cumpriria o percurso Estação Santa Cruz do Metrô sentido Santo Amaro, terminando na R. Américo Brasiliense. A partir daí, seguiria pela faixa da direita até a Rua Marechal Deodoro, no Alto da Boa Vista, saindo então da Av. Vereador José Diniz para cruzar a Av. Adolfo Pinheiro e alcançar a Av. Santo Amaro - no trecho que não seria contemplado com as obras de melhoramentos iniciadas na Praça da Bandeira. Esta informação foi confirmada pelos técnicos encarregados do projeto de melhoria do corredor Santo Amaro, que chegaria apenas até a estátua do Borba Gato.

 

Ou seja, o projeto previa o aumento da velocidade dos veículos ao longo do corredor, mas não previa nenhuma intervenção nos pontos mais críticos representados pelo acesso à Av. Santo Amaro e às vias do centro de Santo Amaro, o que inevitavelmente anularia os ganhos em tempo e fluidez eventualmente conseguidos ao longo do eixo das avenidas.

 

1.2. Sendo um corredor de transporte público, como foi dimensionado, quais dados foram utilizados para definir o projeto?

Foram fornecidos inicialmente os seguintes dados: circulariam hoje no eixo das avenidas, em horário de pico, cerca de 400 ônibus/hora, em média, número este que seria reduzido para algo entre 230 e 260 com a implantação do corredor. Os números foram contestados pelos moradores, que se dispuseram a fazer contagens, que demonstraram que, no pico da tarde, circulavam na altura da Rua S. Sebastião cerca de 126 ônibus/hora.

Após esta verificação, os técnicos dispuseram-se a rever os cálculos, e constataram que outros enganos haviam sido cometidos ao se carregar os dados no programa M2, que determinou referências básicas para o dimensionamento do projeto. Numa primeira reavaliação, o número de ônibus no horário de pico teria sido reduzido para cerca de 80 ônibus/hora. A revisão final dos cálculos somente estará disponível no final do mês de outubro.

1.3. Seja um corredor de transporte coletivo, seja um projeto de melhoria do viário, como justificar que em um sistema de transporte integrado não haja integração entre este projeto, o do corredor da Av. Santo Amaro, a otimização de uso da Av. Adolfo Pinheiro, do corredor da Av. Washington Luis, levando em conta obras de impacto sobre o viário da região, como a construção do Shopping Boa Vista e o projeto de recuperação da área central de Santo Amaro?

 

  1. Ausência de dados consistentes para embasar o projeto
Até o presente momento, ainda não se dispõe de dados sobre:
•  quais linhas passarão ou continuarão a transitar pelas avenidas Ibirapuera e Vereador   José Diniz; •  origem e destino de cada linha nos dois sentidos; •  número de ônibus no horário de pico, nos dois sentidos, por trecho: •  R. Pedro de Toledo/Av. Bandeirantes •  Av. Bandeirantes/R. Vieira de Moraes •  R. Vieira de Moraes/Av. Vicente Rao •  Av. Vicente Rao /R. Mal Deodoro. •  quais linhas entram ou saem do corredor nestes trechos e suas respectivas   freqüências; •  como estão sendo dimensionadas as necessidades dos passageiros; •  com base em quais dados estão sendo projetadas as dimensões e a localização   de embarques, desembarques e transbordos; •  quais são os pontos de cruzamento do viário; •  quais são os pontos de travessia de pedestres; •  como serão feitos os acessos a outras vias do sistema de corredores, como a   Av. Vicente Rao no sentido Diadema, para aqueles que vêm do centro da cidade; •  como está sendo tratado o impacto sobre o bairro, uma vez que, segundo   simulações apresentadas, algumas ruas internas do bairro poderão ter um acréscimo   de até 50% no volume de tráfego, em horário de pico, se comparado ao volume atual;   Desdobramento das reuniões e dos debates Ao longo das várias reuniões realizadas com as equipes envolvidas, houve certamente avanços com relação à discussão de alguns aspectos, os quais, no entanto, ainda não resultaram em alterações concretas no projeto inicial.

Resumindo e complementando as considerações acima, podemos relacionar os seguintes aspectos:

 

Pontos negativos

•  Dados deficientes:
•  carregamento de ônibus (atual e futuro)
•  linhas em operação (atuais e futuras)
•  volume de automóveis (atual e futuro)
•  redirecionamento das lotações que hoje cortam os bairros (prazos, novos itinerários, número de lotações credenciadas, etc.)
•  Ausência de projetos de trânsito e transporte:
•  viário no corredor
•  viário nos bairros lindeiros
•  integração com corredor Santo Amaro
•  integração com Av. Adolfo Pinheiro
•  integração com Rua Antonio Bento e região central de Santo Amaro
•  integração com eixo Izabel Schmidt
•  rede de conexões com os pontos de atração de viagens, por exemplo, estações do metrô e do trem de superfície na marginal Pinheiros
•  Impacto ambiental:
•  ausência de EIA-RIMA atualizado, levando em conta dados não considerados no RIMA de 1997, já sem validade (por exemplo, o aqüífero Petrópolis)
•  ausência de estudo de impacto na flora e fauna local
•  ausência de estudo de impacto no subsolo (aqüífero, adutora da SABESP, impermeabilização, etc.)
•  Impactos urbanísticos:
•  ausência de medidas mitigadores para proteção de todos os bairros lindeiros ao longo do corredor
•  ausência de instrumentos de proteção aos imóveis lindeiros, de forma a evitar a reprodução da lamentável e irresponsável experiência do corredor Santo Amaro
•  ausência de estudos do sistema viário interligando os diversos corredores propostos/existentes na região: Santo Amaro, Água Espraiada, Vereador/Ibirapuera, Washington Luís, Vicente Rao.
•  ausência de estudo de interferências do projeto dos corredores com pólos geradores de tráfego na região, como, por exemplo, o novo shopping de Santo Amaro (Shopping Boa Vista), o Consulado dos Estados Unidos, igrejas, escolas, hospitais, etc.
•  Inconsistência de elementos propostos no projeto ora apresentado:
•  número e localização de paradas, além de distanciamento entre elas
•  condições de deslocamento dos passageiros que desembarcam em paradas situadas no meio do quarteirão
•  largura das calçadas ao longo do corredor
•  largura dos canteiros centrais ao longo do corredor
•  locais de ultrapassagem de ônibus
•  dimensionamento das paradas/estações de transferência, uma vez que não se conhece a demanda em cada ponto
•  continuidade da proposta de alargamento da Av. Ver. José Diniz nos pontos onde, segundo simulações do programa M2 , ocorre o menor estrangulamento de tráfego.
 

Pontos positivos

(a serem confirmados por atitudes e providências ainda não verificadas):

•  Disposição para análise de propostas alternativas:
•  estudo de projeto incluindo a Av. Adolfo Pinheiro
•  extensão das obras de recuperação da Av. Santo Amaro além do Borba Gato
•  revisão do operacional em frente ao Banespa
•  propostas de intervenção viária e urbanística na região central de Santo Amaro
•  Redução do número de árvores afetadas no trecho em frente ao Banespa
•  Intervenções complementares no viário da Av. Prof. Vicente Rao (alças de acesso e retorno, adequação das plataformas de embarque com o projeto do Mini-anel Metropolitano) e nas ruas lindeiras ao Jardim Lusitânia.
•  Inclusão de projeto de drenagem ao longo de toda a avenida, com instalação de bocas-de-lobo.

 

Observações e alertas:

•  A despeito do compromisso do Secretário de que as obras não teriam início antes que se estabelecesse consenso quanto ao projeto (reunião de 28/08 em Moema), e apesar da informação da Enga. Daniela Campos de que o Secretário determinara a desmobilização da empreiteira (encontro no Parque do Cordeiro, dia 20/09), as obras continuam, sob alegação de tratar-se de trabalhos de fresagem e recapeamento, agora atingindo a Av. Adolfo Pinheiro e ruas Graham Bell e Marechal Deodoro.
•  O desvio de tráfego instalado sem prévio aviso aos moradores - e sem necessidade, uma vez que foi determinado que não se desse início às obras até que o projeto fosse suficientemente discutido - já vem causando imensos transtornos à região, induzindo tráfego nas ruas internas a zonas estritamente residenciais.
•  No trecho a partir da Rua Joaquim Nabuco, o recapeamento já foi executado, e foi colocada faixa na 6ª. feira, dia 26/09, anunciando obras a partir do sábado, dia 27/09.
•  Algumas árvores já estão sendo removidas no trecho em frente ao Shopping Ibirapuera e na altura da Rua Joaquim Nabuco.
•  Nas primeiras apresentações do projeto, afirmou-se que o corredor seria operado com ônibus híbridos. Essa afirmação foi desmentida em reuniões subseqüentes, sob a alegação de falta de recursos.
•  Além das três propostas alternativas para o projeto já apresentadas, as entidades incluíram mais uma, que permite a implantação do corredor de ônibus garantindo a preservação da identidade dos bairros e poupando a vegetação e a fauna ameaçadas pelo projeto original. Lamentavelmente, não houve receptividade para esta nova proposta, que certamente poderá superar a maior parte dos inconvenientes apresentados neste documento.
  Considerações:
•  Apesar da imprecisão dos dados em todos os trechos do corredor, que impede a definição do projeto executivo, a obra está sendo executada, aparentemente sem nenhum projeto. Mesmo sem referências confiáveis para a definição do geométrico, da demanda e do fluxo, estão sendo realizadas obras de recapeamento de diversas vias, como a Av. Adolfo Pinheiro, que no projeto final - e até por sugestão das entidades - poderá vir a fazer parte do sistema de corredores, devendo, portanto, receber tratamento especial para a circulação de ônibus em pista de piso rígido.
•  O EIA-RIMA que vem sendo utilizado teve sua validade expirada em 1999. Fomos informados que a SPTrans trabalha em sua "atualização", que somente estará concluída em fins de outubro. Apesar da ausência desse documento fundamental, as obras correm céleres. Como garantir que neste ínterim danos ambientais irreversíveis não tenham ocorrido?
•  As dúvidas dos moradores quanto à necessidade da obra e quanto ao balanço entre o custo e os benefícios a serem colhidos pelo projeto, tal como ele tem sido apresentado, estão justificados na ausência de dados técnicos que justifiquem este gasto público. Não há emergência que justifique que este projeto não seja revisto à luz de dados confiáveis.
•  Tais atitudes desacreditam a seriedade das boas intenções manifestadas pelas autoridades e desrespeitam o empenho da comunidade na busca de soluções conciliadas que atendam todos os interesses em jogo.

 

Tendo em vista a situação delicada que se criou devido às sucessivas evidências de fragilidade conceitual e técnica do projeto em tela, as entidades signatárias solicitam respeitosamente se digne V.S. PARALISAR IMEDIATAMENTE OS TRABALHOS ORA EM CURSO, AINDA QUE DE FRESA E RECAPE, de forma a recuperar a credibilidade atingida e garantir o prazo necessário ao aprofundamento da análise de dados e ao redirecionamento do projeto.

As entidades reiteram sua disposição para as negociações e mantêm-se ao dispor dessa Secretaria para colaborar no que for necessário, dispondo-se inclusive a organizar um mutirão de moradores para realizar a contagem de veículos ao longo do corredor - instrumento fundamental para dar início a qualquer projeto que se pretenda sério, consistente e responsável.

Qualquer alternativa que desconsidere a relevância dos fatos ora relatados comprometerá irreparavelmente um projeto da maior relevância para nossa região e para nossa cidade, lesando a intenção de participação oferecida à sociedade.

A continuidade da execução de uma obra à qual faltam parâmetros, dados precisos e projeto refletirá má aplicação de recursos públicos escassos e desrespeito ao desejo da população que se manifesta por meio do abaixo-assinado anexo.

 


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